post-title O Renascimento de um Esporte como Estilo de Vida

O Renascimento de um Esporte como Estilo de Vida

O Renascimento de um Esporte como Estilo de Vida

O Renascimento de um Esporte como Estilo de Vida

A época de ouro do esporte

Cresci em um bairro na zona sul da capital gaúcha, banhado pelo rio Guaíba, que hoje é considerado um lago pelos geólogos e especialistas no assunto. Me desculpem os especialistas mas eu continuo chamando de rio Guaíba, pois me remete à lembranças da infância, como os longos apitos dos navios que adentravam o canal em meio à densa neblina das manhãs de outono… Ou nos alegres finais de semana em que ficava repleto de velas coloridas!

Eis o ponto: os barcos à vela dominavam o cenário, desde os pequenos Optimists até os imponentes veleiros oceânicos, passando pelos velozes catamarãs com as suas velas multicoloridas. A efervescente década de 1980 vivia o auge deste esporte, que passava necessariamente pelos tradicionais clubes náuticos, como o Veleiros do Sul, Jangadeiros e o Iate Clube Guaíba.

O nível das regatas de monotipos era tão alto que uns garotos do Jangadeiros, os irmãos Paradeda, chegaram a ser campeões olímpicos na classe 470, só para citar alguns dos inúmeros atletas de nível internacional que emergiram das águas do Guaíba.

Grandes estaleiros como a Mariner, Fast Yachts, Brasília Náutica e Cabrasmar cresciam e lançavam novos modelos a cada ano, em um mercado próspero e competitivo. Não se falava em morar a bordo, dar a volta ao mundo, essas coisas… apenas desfrutávamos os finais de semana intensamente, mesmo nos meses frios do inverno gaúcho.

O declínio

Os anos 1990 chegaram com o Plano Collor – um cruzado de direita que botou na lona vários estaleiros, diminuindo a produção de veleiros novos no Brasil. Dali em diante começou um lento declínio da cultura da vela, de uma forma generalizada no país.

Nesta época mudei para Florianópolis e também me distanciei dos veleiros, por motivos pessoais. Mantinha somente o meu windsurf, que me permitia escapar para o mar de vez em quando.

Fui percebendo que a prática da vela estava cada vez mais distante das pessoas e eu me espantava em ouvir algumas vezes perguntas como: o que é um veleiro? Ou: ele anda só com o vento, como assim? É triste porque a perda da cultura náutica é reflexo de um país que esquece as suas raízes, sua história. Porém…

Heróis

Durante essas décadas em que o esporte esteve em baixa, vários velejadores continuavam mantendo o espírito da vela vivo. Além dos atletas que sempre honraram o nome da vela brasileira como os irmãos Grael, Robert Sheidt entre tantos, alguns fizeram feitos homéricos, como o carioca Roberto Barros, que na década de 1960 empreendeu junto com a sua esposa Eileen Barros uma aventura épica, saindo do Rio de Janeiro com um veleiro de 25 pés reformado por eles, sem motor, velejando até o Caribe.

Lá trabalharam por um tempo até comprarem um motor de popa usado e então atravessaram o Canal do Panamá e cruzaram o Pacífico até o arquipélago da Polinésia Francesa. No meio da viagem descobriram que a Eileen estava grávida e nasceu a filha Astrid Barros nas ilhas polinésias. A família vendeu o barco por lá e voltou para o Brasil de avião.

Um escritório de renome internacional

De volta ao Rio, o “Cabinho” como é carinhosamente chamado pelos amigos, começou a projetar o barco perfeito para a família morar a bordo e dar a volta ao mundo: o veleiro Multichine 28, possível de ser construído por qualquer amador.

Nascia o escritório Roberto Barros Yacht Design. Com o passar dos anos, o escritório foi se consagrando como referência em projetos para construção amadora de veleiros de cruzeiro. Centenas de projetos foram vendidos e cada vez mais pessoas se jogavam nesta empreitada de construir o seu veleiro para viverem um novo estilo de vida: a vela de cruzeiro.

O renascimento

A ideia de morar em um veleiro ou fazer longas travessias já fazia parte da cultura de outros países com tradição nas artes navais mas no Brasil só começou a se difundir no final do século XX.

O navegador solitário Amir Klink, a Família Shurmann, Aleixo Belov, Hélio Setti Jr., entre outros navegadores brazucas ajudaram a difundir a cultura da vela de cruzeiro através dos livros em que contam as suas aventuras.

Mais recentemente, com a internet, surgiram canais no YouTube trazendo o tema da vela de cruzeiro e da vida à bordo em veleiros para milhares de pessoas que desconheciam esse estilo de vida.

Admirável mundo novo

Esta nova geração está entrando no mundo da vela por uma nova perspectiva: estão descobrindo que existe um universo a ser explorado. O veleiro representa um novo estilo de vida: livre, simples, minimalista, intenso e integrado à natureza.

A competitividade e o glamour dos clubes náuticos já não seduzem esses jovens de todas as idades, atraídos para essa vida. O importante agora é descobrir este admirável mundo novo!

Sobre Marcelo Bonilla

• Velejador • Instrutor de Vela Oceânica • Capitão Amador • Entusiasta da Cultura Náutica